Ian McEwan e os caminhos da criação literária

Andreas Müller

TIVE A OPORTUNIDADE de acompanhar a palestra de ontem no Fronteiras do Pensamento. Foi excelente. Não só por poder ouvir um escritor do calibre do Ian McEwan – e descolar aquele exemplar autografado no final –, mas também por aprender um pouco mais sobre algo que sempre me fascina: os processos criativos que levam às grandes obras literárias.

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Não que existam processos universais, infalíveis. Muito ao contrário: o diálogo entre McEwan e Daniel Galera, escalado para conduzir a sessão de perguntas e respostas ao final, deixou claro que cada escritor percorre caminhos particulares de criação. Mas é interessante conhecer alguns dos trajetos possíveis.

No caso de McEwan, o que me chamou a atenção foi a forma exaustiva com que ele se dedica àquilo que ele mesmo chama de “pesquisa” – e que nós, jornalistas, talvez pudéssemos chamar de “apuração”. Sim: a ficção de McEwan é construída a partir de uma cuidadosa observação do universo que ele pretende criar (ou retratar).

Cenários, detalhes técnicos, tudo que ajuda a dar força à narrativa é pesquisado e, mais do que isso, checado.

Um caso emblemático, que ele fez questão de recontar na palestra de ontem, é de “Sábado”, que recria um dia na vida de um neurocirurgião em Londres. McEwan passou dois anos acompanhando as rotinas diárias de um neurocirurgião real, escolhido a dedo. Aprendeu cada detalhe sobre os procedimentos, as patologias, etc. E se afastou, assim, dos estereótipos e simplificações que costumam povoar a imaginação dos leigos – e que também tendem a arruinar o trabalho de escritores amadores.

É algo admirável, ainda que possa soar óbvio para alguns. Admirável especialmente para nós, jornalistas. Porque, no fundo, todos nós temos aquela ambição de “escrever bem”. Só que, muitas vezes, a gente esquece que nenhum texto se sustenta só com floreios textuais e boas sacadas linguísticas. Uma boa história, com apuração minuciosa e detalhes vívidos, pode se tornar muito mais envolvente se o redator tiver humildade para contá-la sem a pretensão de maquiá-la.

Dá para escrever bem baseado somente no poder da imaginação e nas alusões de suas experiências pessoais? Até dá. Mas não há dúvidas de que a “pesquisa” de McEwan expande as possibilidades do processo criativo e enriquece sua narrativa, diferenciando-o daqueles que sentam à frente do computador na esperança de criar tudo a partir de quase nada.

Outra questão que me chamou a atenção em McEwan: ele parte do pressuposto de que a leitura é um processo essencialmente visual – logo, ele aposta em recursos textuais que favorecem esse sentido mais do que os outros. Parece óbvio de novo? Para quem tem ambições literárias, geralmente não é. São comuns os textos que se perdem nas descrições de sentidos e sensações ora redundantes, ora desnecessários para o desenvolvimento da trama. Já McEwan aposta na visualidade como forma de cumprir uma aparente missão: permitir que o leitor viva, por meio da leitura, outras vidas além da sua.

De resto, é alentador saber que um dos mais aclamados escritores da atualidade também sofre, e muito, para parir seus próprios textos. Muitas de suas ideias iniciais são simplesmente esdrúxulas. “Reparação”, que se tornou um sucesso inclusive no cinema, nasceu de um argumento maluco de ficção científica. McEwan, porém, teve disposição para reformá-lo e lapidá-lo até que se tornasse a história que é.

E aí está algo que nem todos os jornalistas e aspirantes a escritor têm: determinação para rever e refazer seu próprio texto tantas vezes quantas forem necessárias – pelo menos até se aproximarem de um resultado satisfatório. Em Vida de Escritor, o jornalista norte-americano Gay Talese comenta sobre seu processo de escrita:

“Sempre me detenho numa frase até concluir que me falta disposição ou capacidade para melhorá-la e, ato contínuo, passo para a seguinte, e depois para a outra. Por fim – isso pode levar dias, uma semana inteira – eu obtenho um número de orações manuscritas em letra de forma que me permite formar um parágrafo, e então um número suficiente de parágrafos para preencher três ou quatro páginas do bloco amarelo.”

Nesse ponto, Talese revela, ele deixa de lado o lápis e passa para o teclado de sua Olivetti.

“Se uso espaço duplo e diminuo as margens o máximo possível, consigo encaixar cerca de quinhentas palavras em cada folha da máquina de escrever ou da impressora e leio-a cuidadosamente. Se encontro erros de digitação ou uma frase ou palavra que desejo alterar, refaço a página; ao fazê-lo, é comum que me ocorram novas ideias que julgo que devem ser expostas nessa página.”

McEwan consagra aquela ideia de que as grandes obras são frutos mais de transpiração do que de talento ou inspiração. Mais: dá a entender que seu próprio talento é apenas a soma das habilidades que adquiriu no decorrer da vida, enquanto transpirava (muito!) para pesquisar, escrever, editar, reescrever e experimentar. Pode ser uma conclusão apressada ou até ingênua. Mas é ótimo, para um jornalista como eu, poder acreditar nela.