5 documentários obrigatórios sobre jornalismo

O processo criativo de Gay Talese, mestre do jornalismo literário, é desvelado em “Voyeur”. (FOTO: Reprodução)

equipe república

REFLETIR SOBRE OS DILEMAS DO JORNALISMO ou conhecer os bastidores de uma boa história são temas que atraem cada vez mais diretores e cineastas – e os frutos desse interesse, além de filmes excelentes, são documentários inspiradores.

O recente Voyeur, por exemplo, revela o processo criativo do lendário Gay Talese. Versado na arte do jornalismo literário, Talese trabalha em um livro cuja história, real, é um tanto quanto polêmica: um homem que compra um motel para espionar a intimidade dos hóspedes. Transcendendo a linearidade narrativa, e até mesmo expondo o mito que há décadas orbita Talese, o filme acompanha as reações do jornalista e de seu protagonista – o voyeur –, sobretudo após o mal-estar causado pelos buracos na apuração.

Já O Mercado de Notícias se debruça sobre os desafios e as reflexões acerca da profissão. Prato cheio em tempos de fake news, quando o jornalismo questiona suas próprias possibilidades e limitações. Dirigido pelo brasileiro Jorge Furtado, o filme discute o papel da imprensa brasileira pelo doloroso viés de seus próprios pecados, evocando casos antológicos como o da “Escola Base” e o do “Picasso do INSS”. 

Além desses, recomendamos outros três documentários tanto para jornalistas experimentados quanto focas ou estudantes. A seguir, conheça mais detalhes  – e, principalmente, saiba onde assisti-los. 

– Nobody Speak: Trials of the Free Press (2017)

“Nobody Speak” revela como poder e dinheiro ameaçam a prática jornalística. (FOTO: Reprodução)

O documentário mais recente da lista, é, talvez, também o mais indispensável. Nobody Spreak apresenta duas tramas. Uma sobre a influência de um bilionário do Vale do Silício em uma disputa judicial contra a Gawker Media. A outra narra a compra do principal jornal de Nevada, o Las Vegas Review-Journal, por um magnata de cassinos. Ambos os casos, infelizmente, mostram como poder e dinheiro representam uma grave ameaça ao jornalismo. Oportunidade para nós, jornalistas, lembrarmos por que entramos nessa indústria – para mostrar o que sabemos, revelar a verdade sem medo, enfrentando instituições poderosas se for preciso.

– Primeira Página: Por Dentro do New York Times (2011)

Documentário sobre um dos jornais mais poderosos do mundo e sua transição do (velho) modelo jornalístico para o digital. É verdade que em termos de mercado muita coisa mudou desde o lançamento da obra, mas ela continua atual em relação a questões éticas e estratégicas dos veículos de comunicação. Page One tem como fio condutor David Carr, pai solteiro, ex-viciado em crack e que se tornou um respeitado colunista de mídia do New York Times. Carr, que faleceu em 2015, sempre acreditou numa segunda chance para o jornalismo. Se não a experiência do Times, que o otimismo de Carr contagie você.

– Voyeur (2017)

A dualidade entre a realidade e a ficção fica exposta na obra lançada em 2017 pela Netflix. Mérito do roteiro linear. Assim, o espectador consegue compreender, passo a passo, a relação do jornalista Gay Talese com sua fonte, Gerald Foos, um voyeur que comprou um motel e passou anos espiando a vida dos hóspedes. A história virou livro: The Voyeur’s Motel – com edição em português, O Voyeur, da Cia. das Letras. Quando um trecho dele foi publicado na revista The New Yorker, jornalistas de outros veículos revelaram incongruências na história, questionando as afirmações de Foos, a integridade do livro e inclusive a apuração de Talese. O documentário acompanha toda a reação. 

– O Mercado de Notícias (2014)

Jorge Furtado provoca 13 jornalistas renomados a debater o papel da imprensa brasileira – sob a análise de exemplos jornalísticos negativos, como o caso da Escola Base (colégio infantil de São Paulo fechado em 1994 quando seus proprietários, sócios e uma professora foram injustamente acusados de abuso sexual contra alguns alunos). O roteiro do filme, cujo projeto está disponível em um site especial, é conduzido pela peça teatral O Mercado de Notícias (The staple of news), do dramaturgo inglês Ben Jonson, do longínquo ano de 1625. A peça é uma crítica bem-humorada a uma atividade então recém-criada, uma grande novidade em Londres: o jornalismo.

– O abraço corporativo (2010)

Ary Itnem era um consultor de recursos humanos adepto à “teoria do abraço” – ideia de que a distribuição de abraços melhora a comunicação entre as pessoas e soluciona problemas. Em 2006, sua ideia estourou na internet e ele concedeu entrevistas a veículos de renome, como Folha de S. Paulo e CBN. Só que Ary Itnem não existe. O nome, inclusive, ao contrário quer dizer “mentira”. Toda a história, na verdade, fundamenta uma crítica contundente sobre a maneira atabalhoada, sem checagem, com que as notícias são produzidas no Brasil – e também ao mundo dos gurus do mercado corporativo. Uma aula de jornalismo.

Você tem mais sugestões de documentários? Podemos dar um up em nossa lista. Escreva para jornalismo@republicaconteudo.com.